«Ela era do tipo de poucas palavras e muitos silêncios.
Ele era do tipo de burro demais para, alguma vez, interpretar todo o tanto que ela não dizia.
Ela sentia sempre tudo o que dizia e poucas vezes dizia tudo o que sentia.
Ele sentia sempre que nunca dizia tudo e sempre que nada do que dizia seria inteligível.
Ela só queria ser bem amada e não sabia como.
Ele só queria amá-la bem e não descobria como.
...
Alguém a trouxera a ele faz hoje algum tempo, sim, porque acredito que alguém assim tão especial, dificilmente andará alguma vez só, e desde então que ele se sentia curioso, daquele jeito de curiosidade que nos faz meter os dedos na massa dos bolos e espreitar na caixa do correio.
Encontraram-se um dia de modo imperfeito, mas ele perfeitamente descobriu aquilo que já sentia.
Ela era manhã então... e o sol não perdeu tempo.
Subiu ao seu zénite, e ela enleou-o nesses jogos de sensualidades que as "elas" têm por hábito fazer aos "eles". Condenou-o e absolve-o, enquanto ele, há muito tomara para si a pena de a absorver. E a noite caiu.
...
No silêncio da penumbra, ele tomou cada grão dela seu.
Chorou e riu, cantou e encantou. Teve medo.
Sem notar, conteve em si cada gesto seu. O si dele, e o seu dela, ou talvez seja o inverso, pois só ela o fez ver o seu dele e só ele a fez ver a si.
Ele, quis usar pronomes possessivos.
Ela ficou possessa.
Daquele singelo modo, como quem não sabe se bata ou beije, se chame ou afaste.
Daquele simples modo como olhamos as portas
puxo ou empurro?
Posto isto... também ele institucionalizou que gostava dela.
Ele tinha muito para dar e pouco a pedir...
Que ela fosse a bela, e ele o monstro.
Que ela fosse a sua bela, e ele o seu monstro.
Seus.
Pronome possessivo; plural.»
O ~
multih escreve bem, não escreve? Apaixonei-me por este texto.